De um grande amigo, pra mim (!)

Uma dessas declarações que são de um tipo de amor tão raro.

 

o que me faz ter saudade do que fomos durante dezenove meses? ou do que ainda somos mas sem ser eu-você-together-in-here? do que construímos? ou do que acabamos por demolir? se eu sinto saudade dos seus demônios, por exemplo? das brigas e whatever? ai, foda-se, eu sinto.

esse texto não vai ter tanta coerência. e, quando eu o ler novamente, não saberei o que estava aqui por dentro. é que não tô no meu melhor e procuro achar as razões do meu coração que a própria razão desconhece. como disse blaise pascal. como disse, ai, blasé.

acho que sentir falta de alguém é sentir falta do quando você com ela. do que ela te faz ser. ops! do que vocês se fazem ser. que lixo, meu deus, mas é assim. sem tanta pieguice, claro.

o que é amizade, senão a sensação de que

ai, meu deus, você tinha que estar para ver aquilo!

lembrei de você vendo um filme bobo, bem seu tipo, haha.

ou tô bebado e sei lá, gente, mas tem uma coisa aqui querendo que você não estivesse aí. mas aqui, entendeu? como a coisa.

mas, no fim, ficar tentando achar uma razão e se remoer por isso é um jeito bobinho e carinhoso de tentar entender o que significa quando a gente, vivendo, pensa em sinto sua falta.

Feliz Ano Novo

E adeus ano velho. Com dezembro chegando ao fim e com seus pensamentos voltados às festividades, todo mundo assume uma personalidade extremamente nostálgica e sábia para com o ano que já passou. São feitos agradecimentos de companhias, de amizades novas, de oportunidades criadas e de conquistas alcançadas num tom de gratidão que só se vê mesmo em vésperas. As dificuldades do ano, que durante o seu percurso foram choradas e desesperadoras, agora, na véspera, assumem um manto de sabedoria e superação de dificuldades, com uma simplória afirmação de que “o que aconteceu em 2011, só me fez crescer e aprender”. E aí, sem nenhuma pretensão e planejamento, todos saúdam 2012 com sonhos e esperanças (que aprenderam a desejar na televisão, porque desejar é muito bonito e espirituoso), esquecendo o fato de que no próximo dezembro, todos estarão dando adeus a este ano que tanto desejaram bem.

E assim segue. É um processo de dar boas-vindas a um ano e esquecer, no fim das contas, o quanto o desejaram.

Para os intelectuais que insistem em tentar racionalizar o ano novo, o processo perde a graça. Perdem-se os desejos, perdem-se os votos, perdem-se as 7 uvas pelo chão e os fogos são apenas sais de metais explodindo no céu. Nada mais. Dessa over racionalização surge a amargura que é exaltada pelos espíritos que se dizem intelectuais, os over cult.  Dói desejar, porque todos sabem que não há nada real que irá realizar o seu sonho. Dói festejar, porque antecipa-se o sofrimento do ano que virá. Dói viver, porque viver é pra quem sabe ser feliz, e não pra quem tem certeza que vai acontecer tudo aquilo que te faz triste.

Por isso, de ano novo eu desejo o desapego do que é racional demais. Desejo mais felicidade. E desejo que ninguém se esqueça o que se deseja de ano novo.

Happiness in intelligent people is the rarest thing I know

- Ernest Hemingway

All in

Eu sou uma pessoa chata, extremamente perfeccionista. Não to falando do tipo perfeccionista que se cita numa entrevista de emprego como “maior defeito”. Isso pra mim é modéstia. Também não sou perfeccionista material, daquelas pessoas que arrumam roupas por cores em guarda-roupas ou pares de calçado por tons de uso. Isso é transtorno obsessivo compulsivo. Eu sou perfeccionista… “psiquicamente” falando. Sou daquele tipo insuportável que coloca expectativas altíssimas nos meus desejos, e não permito que haja erro, deslize ou desistência da minha parte.

Se há desistência, há indiferença. Apago mentalmente todo e qualquer afeto que já tive para com este desejo, e assim, além de no longer desired, esse desejo passa a ser odiado. Odiado em proporções tão viscerais, até que se torne completamente indiferente.

Ironicamente ou não, é esse o processo de superação dos meus ex-amores.

Todos esses ex-amores tem uma coisa em comum: caíram no esquecimento. Não fiz nada disso por maldade, veja só você, caro leitor. Esses dias fui surpreendida por um deles, quando este, muito simpático, voltou a falar comigo e me pediu desculpas por tudo o que ele tinha me feito. Eu não me lembrava o que era. Não fazia ideia do porquê das desculpas, e ria, desesperadamente, do meu próprio desespero, de não conseguir lembrar.

Seguindo a premissa que apresentei, só consigo supor que, se um dia lhe desejei e coloquei expectativas imensas em nós dois, algum de nós falhou e retirei as minhas fichas com tanta pressa da aposta, que de um all in, me levantei da mesa correndo, deixando bancos caírem no chão, derrubando as cartas no ar e sem olhar pra trás.

Foi aí que do ódio, tudo virou indiferença, pra depois cair no esquecimento. A única coisa que me incomoda nisso tudo é que não consigo descobrir (ou me lembrar) do momento que eu decido parar de jogar. Do momento em que eu desisto de apostar.

De todos esses ex-amores, que ditos neste plural parecem ser muitos, mas que de coração, são muito poucos, apenas um me dá um trabalho ímpar de ser apagado. Deste filho da puta, não consigo jogar as cartas na mesa. Esses dias até visitei uma cartomante, taróloga, buziática e candomblérica, e ela foi enfática em mandar eu me afastar do “rapaz de cabelos morenos e olhos fundos”. Que fique claro para todos, que não fui na mulher por causa dele, mas como elas sempre abordam esse lado do amor e tudo mais, foi notável o meu espanto. Ela disse que ele me faz mal, e olha, acho que não precisava nem de tarot pra saber que isso é verdade né. Mas não sei, tem alguma coisa aí, que mesmo depois das maiores atrocidades sociais, das maiores ofensas trocadas, das maiores decepções  e dos amores mais falsamente jurados… alguma coisa me provoca tanta curiosidade, que não consigo parar de apostar.

Mas, aposta por aposta, se a vida fosse uma partida de Texas Hold’em, eu diria que num papel muito pequeno, é como se o croupier me pegasse pelos punhos e me obrigasse a deixar a aposta na mesa, por mais que eu tentasse retirar a mão.

- Anda logo, me deixa tirar a mão, o dinheiro é meu, porra!

- Mas o cassino é meu.

- É? Tu não é bosta nenhuma. É um merdinha de um croupier!

- Mas a mesa é minha.

- E eu quero ir embora!

- Mas tu sentou aqui por vontade própria, não foi?

- Foi, mas porque não consigo me levantar?

- Tô te segurando na mesa, minha senhora?

- Não.

- Então te levanta.

- Não.

- Por que?

- Porque não quero.

- Então porque me culpa?

- Te culpo pelo que?

- Por estar aqui presa.

- Tu é só um croupier, rapaz.

- Foi o que eu disse, oras.

- Então me deixa sentada aqui e aumenta essa aposta.

A culpa não é do coitado do croupier, que mesmo sem ser blackjack, fica ali perto de mim agourando cada virada de carta. A culpa também não é do baralho, nem da aposta, nem da mesa. A culpa é minha e desse jogo mental, em que ao estar prestes a levantar da mesa pra sair correndo, me surge uma vontade de ficar e olhar o virar das últimas cartas.

Ironicamente ou não, isso não é ex-amor e nem amor. É falta de desistência. É a curiosidade da aposta.

Se virar um bom full house, perfeito. Mas se não virar, vai dar merda.

Noite de Camelo

Oi gentee! Tudo bem? :)

Depois de alguns meses desde o primeiro show do Marcelo Camelo, em maio, ontem tivemos aqui em Porto Alegre mais uma apresentação maravilhosa da turnê do CD “Toque dela”. Contrabalanceando a euforia e a novidade do primeiro show que fui e contei aqui pra vocês, dessa vez eu estava muito mais ciente do que ia acontecer, do clima do show, de como ia ser a apresentação, do que ele ia tocar e etc. Estava certamente mais “serena” do que naquele primeiro show (que foi a primeira vez que vi o Marcelo tocar pessoalmente), mas olha, nessa 2ª vez…  nada deixou de ser igualmente emocionante e simplesmente sensacional. Ouso dizer que foi tudo muito melhor.

Pra não quebrar a tradição construída desde o primeiro show, obviamente rolaram altos problemas de condução até o opinião. É sempre um problemão arranjar táxi, dividir despesas, combinar horários com os colegas e etc, mas dessa vez conseguimos chegar bem cedo. O pessoal do opinião tinha dito no twitter que não haveria uma banda de abertura, então o show do Camelão estava previsto para começar as 23h~23h30. Chegamos lá por volta das 22h e depois de meia hora já estávamos lá dentro, MUITO próximos do palco. O opinião também não estava tão cheio até aquele momento, então o nosso lugar era perfeito.

Desta vez foi tudo muito mais especial, porque meu amigo bovino-vegetariano, o Edson, estava lá junto. Presenteei, quase que acidentalmente, o aniversário dele com este mimo, e olha, acho que ele gostou, HAHAHA!

A proximidade do palco já tinha me deixado completamente feliz, porque se da outra vez eu estava completamente espremida entre pessoas de 2m de altura, há uns 7m do palco… olha, dessa vez eu tava tão pertinho que dava pra quase pegar nos instrumentos, haha. Não me atrevi a ir muito mais a frente, porque aí sim eu sofreria o triplo de empurrões e esfregadas de pessoas aleatórias, e como eu disse pra vocês, tenho um certo pavor dessas situações.

Quando chegamos, o palco já estava todo montado e todo ornado com as famosas samambaias. Ai essas samambaias… Não sei se vocês sabem direito essa história, mas é que no meio do show o Marcelo pára a cantoria e começa a entregar as samambaias pro público. As samambaias inteiras! Uns baita XAXINS pro público. E eu, desde o último show, estava PREDESTINADA e OBCECADA por pegar uma samambaia pra mim. Achei muito legal a ideia, e pô, são verdes e tão bonitas, hahaha!

Uma delas estava ali tão perto de mim que uma das minhas companhias da noite, uma bixete querida do 1° ano (Mari), me alcançou um raminho da samambaia :) hahaha foi meu consolo da noite, porque mesmo depois de muito grito, não consegui as plantas de novo.

Quem disse que eu não consegui? (e sim, ela está repousando em cima de um livro de fisiologia, porque apesar de ter ido no show, tô de exame na matéria hahaha

O Começo

Quando o Marcelo entrou… foi, de novo, chocante. De novo me surgiu aquela indecisão, aquele questionamento de “poxa vida, será que é ele mesmo? Não pode ser real!”, HAHAHA. E é ainda mais impressionante como ele entra e logo vai cativando todo mundo. Acho que tava todo mundo muito feliz de estar ali, porque se ouviam aplausos demais, e ele sorria tímido, e a gente aplaudia mais, e ele sorria mais ainda. É um clima muito bacana que não dá pra resumir em palavras. Foi bem bonito!

Durante o dia eu tinha acompanhado notícias de que ele passou a manhã e a tarde dando entrevistas em rádios e TVs por toda Porto Alegre, então eu estava esperando que ele chegasse bem cansado. De novo, maravilhoso vê-lo sorrindo e todo contente!

Ficamos pertinho :)

No visual dele, um choque né!? Ele tava sem a característica barba enorme, mas apesar disso, aquilo que eu disse no outro post se confirmou de novo. O Marcelo é sim, extremamente bonito e encantador. A opinião foi geral das pessoas que estavam ali comigo, inclusive daqueles que estavam o vendo pela primeira vez na vida!

Ele chegou, nos deu boa noite e agradecia muito todos os aplausos. Quando começou a tocar, se não me falha a memória, já emendou “A Noite” e “Ô ô”.

A diferença do show de maio para este, é que em maio o “Toque Dela” ainda era muito recente, então eram poucas pessoas que sabiam cantar as músicas na íntegra (mesmo que Ô ô tenha apenas 2 estrofes, hahaha). Dessa vez, se ouvia o lugar inteiro cantar junto, bater palma e participar de tudo. Muito, mas muito bonito.

Intercalando músicas do CD novo e o antigo, o primeiro ponto alto foi quando ele sentou pra tocar Janta. O violão estava com uns probleminhas de som, mas o Camelo tava num bom humor impressionante. Levantava uma cervejinha, fazia piada com o público e até com os membros do backstage. Arrumado o som, logo peguei o celular pra gravar a música.

Não gosto de gente que grava vídeo em show, porque poxa vida, só se dá pra ouvir a gente gritando no fundo, HAHAHAHA. Mas eu prometi pra Angela (que falhou de não vir ver o show de novo) que eu ia gravar Janta pra ela, então, os senhores podem perdoar a cantoria desafinada no fundo e a tremedeira desenfreada do celular (eu tava muito nervosa, tremi o show inteiro)

Depois de Janta é que veio a maior surpresa. No final do mês passado, eu e o Edson tivemos a chance de ir ao Beco aqui de Porto Alegre ver o Bloco do Eu Sozinho, que é um projeto do Rodrigo Barba e outros músicos de, bom.. de reproduzir o CD do Bloco do Los Hermanos numa mini-turnê. Foi MUITO FODA, porque foi tudo muito bem executado, bem cantado, com um instrumental impecável, com direito até ao Bubu no trompete. O Bloco é o CD favorito do Edson, e dentro deste, Casa Pré-Fabricada é de longe uma das melhores músicas. Para nossa supresa até então, a nossa maior esperança de ver o Camelo cantando essa música só iria se confirmar, talvez, no show do Los Hermanos previsto pra 2012… mas ó, ele cantou ontem!!!!!!

E foi… inexplicável. Foi uma versão calminha e muito emocionante. O opinião inteiro cantava junto, sem erros, alto e com vontade. Foi tão bonito que no último verso… todo mundo, inclusive o Marcelo, caiu no choro. Foi FODA. Foi certamente o melhor momento do show, e ai, se eu não parecer tão exagerada… uma das coisas mais bonitas que já vi na minha vida.

Ontem! :DDDDDDDD

(apresentação no Jornal da RBS, ele canta Casa Pré-Fabricada no minuto 3:42)

Depois disso, acho que nada podia ficar melhor. O show continuou num clima muito foda e ele cantou várias músicas que não tinha tocado em maio. O repertório foi bem maior, incluindo até as preferidas Santa Chuva, A Outra e Além do que se vê. Essas três com um choro ímpar da minha parte e do pessoal junto comigo.

Depois do bis, ele terminou com mais 2 do Los. Aí ele já tava indo embora, mas acho que voltou porque esqueceu de tocar Vermelho! HAHAHA e foi ótimo, porque todo mundo pedia “Vermelho, vermelho!!”, e de novo, ao contrário de maio, todo mundo sabia cantar verso por verso.

Acho que não consigo descrever nada com mais detalhes, porque a memória da gente fica um pouco afetada pela emoção. Dizem que grandes emoções são boas pra consolidar memórias, mas na mina cabeça isso não funciona muito bem.

De tristezas desse show só levo três coisas:

Uma que não consegui ganhar uma samambaia, mesmo depois de muito grito e de muita campanha de todo mundo que tava perto comigo (Obrigada de novo gente HAHAHAHA). Espero que quem tenha ganhado cuide muito bem, porque eu ia dar muito amor pra essa planta, viu?

A segunda já foi mais triste né… Depois do show terminar e do lugar esvaziar, entramos na fila pra tirar foto/conversar com ele e ficamos lá por mais ou menos 1h e meia. Quando chegou na nossa vez (e de duas meninas na nossa frente), os seguranças pararam a fila e disseram:

- Olha, agora só lá do lado de fora.

E putz, foi muito broxante, sabe? A gente já tava com muita dor nas pernas, esperando há muito tempo. Isso já era umas 2h da manhã, haha. Até fomos lá pra fora tentar alguma coisa, mas o pessoal que estava atrás da gente na fila acabou furando a ordem e aí não ia mais rolar de tirar foto com ele porque tinha muita gente. Então optamos por voltar pra casa, com um coração partido. Vim agarrada na folha de samambaia, hahaha.

E bom, a terceira e última tristeza é que não tem mais Camelo esse ano, mas também, quer o que né? Foi um ano ótimo :)

Mas sabe.. tenho uma leve impressão de que 2012 vai ser ainda melhor.

Esperem só pra ler aqui o “Dia de Los Hermanos”! :D

Canto que é de canto que eu vou chegar
Canto e toco um tanto que é pra te encantar
Canto para mim qualquer coisa assim sobre você
Que explique a minha paz
Tristeza nunca mais

De alegria, levo muito!

 

 

 

Ode ao Lucas

oi lindos, tudo de boézima?

Então, tô aqui pra narrar pra vocês mais uma história emocionante, dessas que acontecem de verdade, mas que não tenho coragem de chamar de crônica. Coincidentemente (ou somente por uma ironia indicativa de que estou frequentando lugares de gordinhos), o ambiente dessa nova história é também uma pizzaria, como no post da Terezinha. Tô pensando seriamente em passar a frequentar mais pizzarias, porque sempre rola uma história legal pra contar depois. Quem sabe eu não lanço um livro um dia, chamado “Crônicas de pizzaria“, hein? Quem sabe eu também não engordo 40kg né, nunca se sabe.

***

A história de hoje é sobre um cara chamado Lucas. Escolhi este nome pra ele, porque obviamente não troquei uma palavra com o cara, não esbarrei nele, e nem consigo imaginar o seu nome. Até pensei em chamá-lo de João por causa da comum escolha do nome no Brasil, mas se era pra escolher nome de Apóstolo, que fosse um nomezinho mais pessoal (e mais bonito).  João era o apóstolo do amor, mas aqui na história, é o Lucas mesmo. Quero deixar claro que não tenho nada contra Joões.

Assisti ao drama do menino Lucas de umas 2 mesas de distância, uns 4 metros, no máximo.  Sua idade eu também não sei, mas vou dar uns 19 anos de idade, explicados pela inocência e nervosismo que o menino transbordava, e que já já vai ficar clara pra vocês também.

Chegamos na tal pizzaria por volta das 9 da noite. Era um lugar bastante pequeno, frequentado por diferentes classes sociais, escancarado em paredes de vidro de cara pra uma das grandes avenidas daqui da cidade. Não é um lugar dito aconchegante, e além da disposição Fordista de pizzaria, tínhamos que ficar levantando para nos servir de saladas e bebidas.  O “ó”, para os mais preguiçosos. O ambiente também não era tão familiar quanto o daquelas grandes pizzarias onde rencas de parentes vão pra celebrar aniversários. Era sim um lugar mais jovial, em que os mais novos não celebram seus aniversários em voz alta porque têm vergonha de cantar parabéns em público. Então, não se viam mesas grandes e também não se ouviam parabéns.

Estávamos em 3 amigos e logo que sentamos na mesa, já vimos o Lucas sentado sozinho no meio do salão. Ele chamava atenção porque além de estar sozinho em uma mesa de duas pessoas, ele era, com todo respeito, extremamente bonito. Bastante jovem, alto e esguio, ele trajava uma camisa social bem passadinha e uma calça preta menos formal. Um conjunto visivelmente nervoso, já que a camisa estava delicadamente abotoada nas mangas, e de vez em quando ele ficava passando a mão no colarinho apertado. Associado ao vestuário engomadinho, ao cabelo bem arrumado e estrategicamente desleixado com gel e a barba bem cuidada, o nervosismo dele era denunciado em suas constantes olhadas no celular, torcidas e estralos de mão e longas olhadas pelas janelas. Claramente estava esperando alguém.

Na mesa, nada. O prato branco limpo indicava que ele não tinha comido ainda. Garçons passavam por ele oferencendo sabores variados, e ele negava um e outro com um risinho nervoso. Do lado esquerdo dele, uma caneca de vidro já estava vazia desde antes de chegarmos.

E assim ele foi indo. Olhava para o celular, enviava mensagens e dava uma risadinha ou outra. Olhava tudo em volta, incansavelmente olhava para a porta e depois olhava para o celular de novo.

Enquanto ele repetia o ritual, Lucas se tornou assunto na nossa mesa. Quem será que ele está esperando? Um homem ou uma mulher?

Essa dúvida parece bruta e indiscreta se jogada sem justificativa ou contexto, mas Lucas tinha uma beleza excepcionalmente duvidosa. Daquelas que você acredita ser impossível de alcançar, então enquanto eu desejava que ele esperasse um homem, meus amigos torciam para que ele estivesse esperando uma mulher. Era mais fácil para nós aceitarmos que o tal Lucas era inalcançável para qualquer um dos nossos gostos, porque seria mais fácil lidar com a inveja.

Que triste ter que admitir um pecado capital né, mas infelizmente a inveja bate nessas horas. Quem é que não desejaria ter um Lucas esperando por você, nervoso, ansioso e olhando para a porta te esperando chegar?

Mas naquele momento o Lucas já tinha deixado de ser vitrine de beleza e acabou virando nosso objeto de estudo. Ou melhor, virou nosso amigão. Já estávamos lá a 25 minutos, e sabe-se lá quanto mais o Lucas ficou, então estávamos todos realmente nervosos. Dada a participação intensa na história e a nossa observação meticulosa (e invasiva) do Lucas, o encontro dele se tornou nosso também.

Enquanto ele colocava as mãos embaixo da mesa e começava a apertar uma contra outra, dando leves batidinhas de perna no chão, íamos fazendo o mesmo, reabastecendo nossos copos de Coca-Cola, e igualmente nervosos, olhando pra porta nonstoppable. A grande diferença entre nós, é que nossa mesa estava comendo pizza. O Lucas já devia estar em cetoacidose nervosa, numa gastrite imensa.

Algumas vezes o Lucas até cruzou olhar conosco, mas acho que ele jamais imaginaria que estávamos dividindo tanta coisa naquele momento.

Mais olhadas, mais nervosismo, e já estávamos discutindo a história de vida do Lucas. Porque será que ele está tão bem arrumado? É um primeiro encontro? Só isso explicaria o nervosismo… É um encontro as escuras? Talvez isso explicasse ainda mais a impaciência do menino. É então um pedido de namoro? Ah não, mas se fosse pedido de namoro não ia ser feito na pizzaria né? Mas e a roupa formal?

Teorias após teorias, assumimos que era um encontro. O menino tava suando frio, hiperativo e com expectativas translúcidas no olhar de quem iria enxergar uma princesa da Disney entrar pela porta.

Depois de infinitas olhadas para (e do próprio) Lucas, e de exatos 42 minutos da nossa chegada, ele recebeu uma ligação. Atendeu o celular com pressa, num riso nervoséééérrimo e desligou logo em seguida. A postura dele mudou na hora. Endireitou a coluna, respirou fundo e depois se contraiu de novo na cadeira. Olhou para a porta e aí mais uma ligação.

Nesse momento, eu e meu amigo que estávamos de frente para o Lucas, não podíamos olhar pra porta. Descaramento (infelizmente) tem limite.  Em compensação, nosso outro amigo, estava do outro lado da mesa, de costas pro Lucas e de frente para a porta. Então enquanto o Lucas atendia o telefone ele a viu entrar.

Aí meu amigo observador terciário já falou: Chegou!

- Era ela!

- Meu Deus, era ela!

Lucas já se levantou rapidamente e foi recebê-la na porta. Era uma mulher, para a alegria consolada dos meninos e pra uma auto-piedade instântanea da minha parte.

Festejamos, observamos a roupa e a fácies da mocinha como 3 tia-avós do Lucas, buscando aprovação da futura cônjuge a adentrar a família. Não sei se chegamos a uma boa conclusão sobre a menina, porque nossos melhores interesses eram voltados para o Lucas. Enquanto ela se sentava na mesa com ele, ele dava risadinhas extremamente contidas, erguendo os ombros e ressaltando covinhas. Ele estava tão nervoso e tão feliz ao mesmo tempo! Um amor que só!

Depois, ele levantou pra pegar bebida para os dois, e ela já pediu o primeiro pedaço de pizza sem esperar por ele.

Então apesar da deselegância da mocinha, que poxa vida, olha o quanto o Lucas te esperou hein filha, podia esperar um pouco mais pra comer não? Bom, só conseguimos desejar felicidades ao casal!

E um pedido de desculpas ao Lucas pela intromissão exacerbada no seu encontro.