Nem sei o que diabos vim fazer na rua. Talvez fiquei tempo demais olhando pro nada e sonhando acordada, que quis sair pra procurar o novo. Mas pra me achar no novo, tenho que me arriscar nesse novo, e torcer pra encontrar de novo. E é uma pena que eu não seja uma pessoa de arriscar.
Entrei aqui na padaria. Não tenho absolutamente necessidade alguma de estar aqui, mas me deu vontade de tomar café. Engraçado. Eu tenho café em casa. Pó de café, café solúvel e até um café velho que está morrendo na garrafa há meia semana. Mas como eu ia gastar tempo esquentando a água, cuidando a temperatura do borbulhar na xícara, separar colheradas de pó pra coar… achei mais fácil optar pelo café cremosinho daquelas maquininhas magníficas que servem cafés angelicais. Confundo praticidade com preguiça.
Fiquei uns 10 minutos com cara de idiota, olhando pra cada estante procurando alguma coisa pra comprar. Não sei dizer se esse é um episódio de compulsão por compras ou alguma coisa do tipo, mas eu não precisava estar aqui agora, e mesmo assim estou. Não quero comprar comida pronta, porque não tô com fome. Mas se eu não tô com fome, por que diabos tô numa padaria? Mas né… que outro lugar eu poderia estar?
Decidi pegar o café da máquina. Mocaccino. Essa merda é tão boa. Tem chocolate e café. Bá, se eu fosse rica, compraria uma maquininha dessas pra colocar no meu quarto. Mas aí acho que perderia a graça, porque seria prático demais e seria só mais um motivo pra não precisar sair do quarto nunca mais né?
Aproveitei pra pedir um lanche também. Pra levar. Por que não tô com fome, mas daqui algumas horas vou estar. Mas se parar pra pensar, eu não gosto desse lanche gelado. Ele tem que ser comido na hora. Se o alface fica na geladeira, ele fica cinza, meio verde-militar. Fica nojento. O tomate também fica gelado, e quando coloco no microondas, ele sempre fica mais gelado que o resto do lanche, o pão fica mole e aguado, a ervilha dá náuseas e o gosto de ovo é horrível. Pedi sem ovo.
Sentei na mesinha limpinha pra esperar a confecção do lanche. Sabe.. eu não queria esperar. A mesma vontade súbita que senti em sair de casa, quer me levar de volta, correndo. Eu também não consigo tomar café quente. Já faz uns 3 minutos que estou assoprando sem parar o mocaccino, mas não tenho coragem de tomar um gole. Eu sei que vou queimar a língua. Eu não queria esperar.
Do meu lado, um casal idiota troca carícias. Que merda isso. Odeio demonstrações públicas de afeto, e tenho orgulho em dizer que nunca marquei esse quadradinho em preferências amorosas de nenhuma rede social.
Tá, é mentira. Eu acho bonitinho demonstrar afeto, mas não nessa proporção.
O cara parece ter uns 35 anos. Ela tem jeito de uns 30. Eu até sou bondosa, e dou uns 29, porque ela é bonita e não quero arriscar dar 3 décadas de rugas para a coitadinha. Ele é feio de doer, mas ela parece não se importar com isso. Beijos, beijos, beijos. Passadas de mão. Que constrangedor, Jesus. Mesmo apesar da estimativa alta de idade e de o local ser nada mais romântico que uma padaria, os dois parecem adolescentes idiotas que não conseguem nem comer sem se desgrudar.
Merda de café que não esfria.
Parece que o casal está naquela fase boa do relacionamento, bem no começo, ou no mínimo, bem no auge da intimidade. Não sei distinguir esta fase ao certo, mas sei dizer que é aquela época da vida em que você pode estar mastigando carne e mesmo assim não se importa em beijar o amado mesmo que a boca dele esteja cheia de farofa ou vinagrete. Eu tenho um certo nojo dessa fase.
Fiquei uns eternos 10 minutos fazendo essa análise sem olhar pra cara dos dois. Lá pelos 8 minutos de andamento, dei uma olhada pelo espelho pra tentar enxergar a manchete do jornal que estava em outra mesa, e talvez a moça pensou que eu estava olhando pros dois. Independente do seu pensamento, recebi dela uma olhadinha de reprovação. Ciumenta? Sei lá, mas acho que é bom parar de olhar.
Logo pensei: “Não sei pra que ter ciúmes se seu cônjuge é tão feio assim, querida.”
Enquanto as carícias aumentam, eu tenho uma vontade imensa de arrancar meus olhos, porque infelizmente não consigo achar um campo visual que retire o casal da minha visão periférica. Que desconforto, meu deus. Por que isso me incomoda tanto? Vão ser feliz em outro lugar. Tem gente querendo tomar café em paz aqui, meus senhores!!
Quando o café finalmente ficou morninho, naquela temperatura agradável em que eu não mato nenhuma papila gustativa, tomei o primeiro gole divino, e vi vindo a moça trazendo o meu lanche. Ela colocou ovo. Que merda. Odeio ovo. Mas esse café tá bom demais, hein?
E sem contentamento algum, exceto pelo gostinho ralo de café achocolatado, fui embora correndo.
Não sei o que fui fazer na rua.


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