Mocha, pt 3

Nem sei o que diabos vim fazer na rua. Talvez fiquei tempo demais olhando pro nada e sonhando acordada, que quis sair pra procurar o novo. Mas pra me achar no novo, tenho que me arriscar nesse novo, e torcer pra encontrar de novo. E é uma pena que eu não seja uma pessoa de arriscar.

Entrei aqui na padaria. Não tenho absolutamente necessidade alguma de estar aqui, mas me deu vontade de tomar café. Engraçado. Eu tenho café em casa. Pó de café, café solúvel e até um café velho que está morrendo na garrafa há meia semana. Mas como eu ia gastar tempo esquentando a água, cuidando a temperatura do borbulhar na xícara, separar colheradas de pó pra coar… achei mais fácil optar pelo café cremosinho daquelas maquininhas magníficas que servem cafés angelicais. Confundo praticidade com preguiça.

Fiquei uns 10 minutos com cara de idiota, olhando pra cada estante procurando alguma coisa pra comprar. Não sei dizer se esse é um episódio de compulsão por compras ou alguma coisa do tipo, mas eu não precisava estar aqui agora, e mesmo assim estou. Não quero comprar comida pronta,  porque não tô com fome. Mas se eu não tô com fome, por que diabos tô numa padaria? Mas né… que outro lugar eu poderia estar?

Decidi pegar o café da máquina. Mocaccino. Essa merda é tão boa. Tem chocolate e café. Bá, se eu fosse rica, compraria uma maquininha dessas pra colocar no meu quarto. Mas aí acho que perderia a graça, porque seria prático demais e seria só mais um motivo pra não precisar sair do quarto nunca mais né?

Aproveitei pra pedir um lanche também. Pra levar. Por que não tô com fome, mas daqui algumas horas vou estar. Mas se parar pra pensar, eu não gosto desse lanche gelado. Ele tem que ser comido na hora. Se o alface fica na geladeira, ele fica cinza, meio verde-militar. Fica nojento. O tomate também fica gelado, e quando coloco no microondas, ele sempre fica mais gelado que o resto do lanche, o pão fica mole e aguado, a ervilha dá náuseas e o gosto de ovo é horrível. Pedi sem ovo.

Sentei na mesinha limpinha pra esperar a confecção do lanche. Sabe.. eu não queria esperar. A mesma vontade súbita que senti em sair de casa, quer me levar de volta, correndo. Eu também não consigo tomar café quente. Já faz uns 3 minutos que estou assoprando sem parar o mocaccino, mas não tenho coragem de tomar um gole. Eu sei que vou queimar a língua.  Eu não queria esperar.

Do meu lado, um casal idiota troca carícias. Que merda isso. Odeio demonstrações públicas de afeto, e tenho orgulho em dizer que nunca marquei esse quadradinho em preferências amorosas de nenhuma rede social.

Tá, é mentira. Eu acho bonitinho demonstrar afeto, mas não nessa proporção.

O cara parece ter uns 35 anos. Ela tem jeito de uns 30. Eu até sou bondosa, e dou uns 29, porque ela é bonita e não quero arriscar dar 3 décadas de rugas para a coitadinha. Ele é feio de doer, mas ela parece não se importar com isso. Beijos, beijos, beijos. Passadas de mão. Que constrangedor, Jesus. Mesmo apesar da estimativa alta de idade e de o local ser nada mais romântico que uma padaria, os dois parecem adolescentes idiotas que não conseguem nem comer sem se desgrudar.

Merda de café que não esfria.

Parece que o casal está naquela fase boa do relacionamento, bem no começo, ou no mínimo, bem no auge da intimidade. Não sei distinguir esta fase ao certo, mas sei dizer que é aquela época da vida em que você pode estar mastigando carne e mesmo assim não se importa em beijar o amado mesmo que a boca dele esteja cheia de farofa ou vinagrete. Eu tenho um certo nojo dessa fase.

Fiquei uns eternos 10 minutos fazendo essa análise sem olhar pra cara dos dois. Lá pelos 8 minutos de andamento, dei uma olhada pelo espelho pra tentar enxergar a manchete do jornal que estava em outra mesa, e talvez a moça pensou que eu estava olhando pros dois. Independente do seu pensamento, recebi dela uma olhadinha de reprovação. Ciumenta? Sei lá, mas acho que é bom parar de olhar.

Logo pensei: “Não sei pra que ter ciúmes se seu cônjuge é tão feio assim, querida.”

Enquanto as carícias aumentam, eu tenho uma vontade imensa de arrancar meus olhos, porque infelizmente não consigo achar um campo visual que retire o casal da minha visão periférica. Que desconforto, meu deus. Por que isso me incomoda tanto? Vão ser feliz em outro lugar. Tem gente querendo tomar café em paz aqui, meus senhores!!

Quando o café finalmente ficou morninho, naquela temperatura agradável em que eu não mato nenhuma papila gustativa,  tomei o primeiro gole divino, e vi vindo a moça trazendo o meu lanche. Ela colocou ovo. Que merda. Odeio ovo. Mas esse café tá bom demais, hein?

E sem contentamento algum, exceto pelo gostinho ralo de café achocolatado, fui embora correndo.

Não sei o que fui fazer na rua.


Mais Caio

“Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas as coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende?”

i’m still in love with judas, baby

Eu disse pra mim mesma que ia limpar esse quarto no final de semana. É tarde de domingo, tenho uma prova amanhã, não comecei a ler, e também não comecei a limpar. Não comecei nada. Porque se eu não começar nada, não corro risco de não conseguir terminar.

Eu disse pra mim mesma que não ia mais pensar em ti. Mas eu comecei, e agora pago o risco de não conseguir terminar.

Arterite Temporal e Polimialgia Reumática numa Pintura de 1436

- Texto retirado de um dos meus blogs favoritos, o A arte da Medicina;

- É no mínimo impressionante poder identificar doenças em pinturas, esculturas e etc. O blog lista uma série de correlações clínicas relatadas em obras de arte, que vocês podem conferir clicando aqui;

- Estou no aguardo por um artigo que relacione Picasso à presbiopia ou epilepsia; e esclerose múltipla em bonecos de palitinho. Risos. *bateria humorística*

———————-

Dentre as obras de arte mais discutidas entre os doutores que visitam o museu municipal de Bruges, na Bélgica, destaca-se um trabalho concluído por Jan van Eyck há mais de 500 anos, representando a Virgem com o Canon Van der Paele (1436). O canon é particularmente o foco do interesse médico.

A Virgem com o Canon (1436). Jan van Eyck. Museu municipal de Bruges (Bélgica).

Oftalmologistas diagnosticaram ligeiro estrabismo divergente e lagoftalmo. Além disso, a distorção produzida pelas lentes que aparecem sobre o manuscrito em suas mãos sugere que esse canon era míope e não presbiope, como se poderia esperar em sua idade.

Também dermatologistas têm comentado anormalidades em sua pele. Eles observaram alguns nevos celulares na face, um cisto sebáceo na orelha esquerda e um epitelioma labial que fora obliterado pela restauração da a pintura em 1934.

Clique para ampliar a foto. Verifiquem o espessamento das artérias temporais.

Reumatologistas ficaram impressionados com a aparência que van Eyck registrou da região temporal do Canon Van der Paele. São nítidamente visíveis as artérias proeminentes, bem com a formação de cicatrizes e perda de cabelo na frente da orelha esquerda e entre as sobrancelhas. Mesmo sem uma biópsia, muitos clínicos consideraram esse aspecto característico de arterite temporal.

Estudos históricos posteriores evidenciaram que ele tinha dor e rigidez no braço esquerdo. O edema difuso de sua mão esquerda indica uma esclerose crônica observada em pacientes com ombralgia de longa duração ou a síndrome de ombro-mão, uma das características de polimialgia reumática.

Segundo a acta da catedral, após onze anos de serviço regular, der Paele passou a apresentar suas primeiras dificuldades durante um culto que acontecia numa manhã de novembro, no ano de 1431. Em setembro 1434 o canon, “em vista de sua debilitação geral”, obteve permissão para manter seus rendimentos, apesar de não freqüentar o serviço.

Nessa época, julgando próximo o seu fim, resolveu convidar Jan van Eyck para fazer um retrato especial, em que aparecia ao lado da Virgem, para decorar a Igreja em sua memória. A pintura foi concluída em 1436.

Ele morreu em 25 de agosto de 1443. Os dados históricos que contém registros sobre sua saúde apoiam o diagnóstico clínico de arterite temporal associado a polimialgia reumática, visto que esta última condição ocorre em 40% dos casos de arterite de células gigantes. A dor reumática com rigidez matinal, associada a fraqueza geral, forçou o van Paele a abandonar suas atividades matinais. Esta debilitação, não fatal, permitiu que ele sobrevivesse ainda por doze anos, uma história compatível com o curso natural da polimialgia reumática.

REFERÊNCIAS:
1.Antônio Carlos Lopes, tratado de Clínica Médica, 2 edição, Roca, 2009.
2.DEQUEKER, JV. “Polymyalgia rheumatic with temporal arteritis, as painted by Jan Van Eyck in 1436”.CMA JOURNAL/JUNE 15. 1981/VOL. 124.