All in

Eu sou uma pessoa chata, extremamente perfeccionista. Não to falando do tipo perfeccionista que se cita numa entrevista de emprego como “maior defeito”. Isso pra mim é modéstia. Também não sou perfeccionista material, daquelas pessoas que arrumam roupas por cores em guarda-roupas ou pares de calçado por tons de uso. Isso é transtorno obsessivo compulsivo. Eu sou perfeccionista… “psiquicamente” falando. Sou daquele tipo insuportável que coloca expectativas altíssimas nos meus desejos, e não permito que haja erro, deslize ou desistência da minha parte.

Se há desistência, há indiferença. Apago mentalmente todo e qualquer afeto que já tive para com este desejo, e assim, além de no longer desired, esse desejo passa a ser odiado. Odiado em proporções tão viscerais, até que se torne completamente indiferente.

Ironicamente ou não, é esse o processo de superação dos meus ex-amores.

Todos esses ex-amores tem uma coisa em comum: caíram no esquecimento. Não fiz nada disso por maldade, veja só você, caro leitor. Esses dias fui surpreendida por um deles, quando este, muito simpático, voltou a falar comigo e me pediu desculpas por tudo o que ele tinha me feito. Eu não me lembrava o que era. Não fazia ideia do porquê das desculpas, e ria, desesperadamente, do meu próprio desespero, de não conseguir lembrar.

Seguindo a premissa que apresentei, só consigo supor que, se um dia lhe desejei e coloquei expectativas imensas em nós dois, algum de nós falhou e retirei as minhas fichas com tanta pressa da aposta, que de um all in, me levantei da mesa correndo, deixando bancos caírem no chão, derrubando as cartas no ar e sem olhar pra trás.

Foi aí que do ódio, tudo virou indiferença, pra depois cair no esquecimento. A única coisa que me incomoda nisso tudo é que não consigo descobrir (ou me lembrar) do momento que eu decido parar de jogar. Do momento em que eu desisto de apostar.

De todos esses ex-amores, que ditos neste plural parecem ser muitos, mas que de coração, são muito poucos, apenas um me dá um trabalho ímpar de ser apagado. Deste filho da puta, não consigo jogar as cartas na mesa. Esses dias até visitei uma cartomante, taróloga, buziática e candomblérica, e ela foi enfática em mandar eu me afastar do “rapaz de cabelos morenos e olhos fundos”. Que fique claro para todos, que não fui na mulher por causa dele, mas como elas sempre abordam esse lado do amor e tudo mais, foi notável o meu espanto. Ela disse que ele me faz mal, e olha, acho que não precisava nem de tarot pra saber que isso é verdade né. Mas não sei, tem alguma coisa aí, que mesmo depois das maiores atrocidades sociais, das maiores ofensas trocadas, das maiores decepções  e dos amores mais falsamente jurados… alguma coisa me provoca tanta curiosidade, que não consigo parar de apostar.

Mas, aposta por aposta, se a vida fosse uma partida de Texas Hold’em, eu diria que num papel muito pequeno, é como se o croupier me pegasse pelos punhos e me obrigasse a deixar a aposta na mesa, por mais que eu tentasse retirar a mão.

- Anda logo, me deixa tirar a mão, o dinheiro é meu, porra!

- Mas o cassino é meu.

- É? Tu não é bosta nenhuma. É um merdinha de um croupier!

- Mas a mesa é minha.

- E eu quero ir embora!

- Mas tu sentou aqui por vontade própria, não foi?

- Foi, mas porque não consigo me levantar?

- Tô te segurando na mesa, minha senhora?

- Não.

- Então te levanta.

- Não.

- Por que?

- Porque não quero.

- Então porque me culpa?

- Te culpo pelo que?

- Por estar aqui presa.

- Tu é só um croupier, rapaz.

- Foi o que eu disse, oras.

- Então me deixa sentada aqui e aumenta essa aposta.

A culpa não é do coitado do croupier, que mesmo sem ser blackjack, fica ali perto de mim agourando cada virada de carta. A culpa também não é do baralho, nem da aposta, nem da mesa. A culpa é minha e desse jogo mental, em que ao estar prestes a levantar da mesa pra sair correndo, me surge uma vontade de ficar e olhar o virar das últimas cartas.

Ironicamente ou não, isso não é ex-amor e nem amor. É falta de desistência. É a curiosidade da aposta.

Se virar um bom full house, perfeito. Mas se não virar, vai dar merda.


2 Comentários on “All in”

  1. Jackson Daniel do Pandeiro disse:

    Texto confuso, desconexo!


Fala aí, seu bosta

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