meu blog: meu terapeuta

Tô com tanto sono… Mas tô com de dormir cedo, porque estou esperando alguma coisa acontecer. Nada em especial, nada de cunho romântico ou pessoal, mas sim alguma coisa que quebre um pouco a rotina, e que eu não tenha que ir dormir agora cedo por simplesmente não ter o que fazer. Eu tô com dó de perder horas indo dormir as 21h.

Eu fico vagando nessa internet procurando alguma coisa pra rir, talvez algum filme bacana que ainda não vi, músicas que ainda não me cansaram no itunes, mas sabe, até a internet tem me cansado um pouco.

A rotina na faculdade já está frenética. Temos aulas demais. Ontem saí de casa as 7h e voltei as 21h, hoje: o mesmo. Estou muito feliz por estar tomando meu santo remédio, que está me dando forças pra ir pra lá e pra cá e aguentar o ritmo dos colegas saudáveis, mas por mais que eu faça Medicina, fico meio preocupada de simplesmente ficar confiando no fármaco a longo prazo pra me sentir bem. Mas por hora, tá tudo ok.

Meus amigos não entram na internet, estou às moscas. Fico o dia inteiro em função da faculdade, preocupações da faculdade, Medicina pra lá, Medicina pra cá, e moro numa cidade enorme do caralho e não faço nada extracurricular. Eu não vivo extracurricular. Medicina chata do caralho.

Semana passada me chamaram pra ir numa festa tri boa. Mas adivinhem: festa da faculdade. Tá certo que eu não vou em festas da faculdade desde o ano passado, mas argh! não quis ir. Mas eu também tava miada. Não estava com vontade de sair pra beber, porque teoricamente não posso beber, mas a prática é sempre desafiadora e eu acabo bebendo e acabo ficando mal.

Não mal de  vomitar pelas paredes e sair dançando pelada. Mas um mal estar físico mesmo. Me abaixa a pressão, me dá dor de barriga. Não sei se isso é efeito colateral do remédio, ou se é efeito colateral da culpa de estar bebendo medicada, HAHAHA. Mas não é nada legal.

Essa semana vai ter festa com os novos bixos, e eu vou e tudo mais, mas não sei, sabe? Não estou na vibe certa.

Tá, a Medicina não é chata. Esse semestre nós estamos tendo um choque de realidade, entrando um pouco mais na Medicina mesmo: conversas diretas com pacientes, modos, direitos e deveres; Estamos também tendo um intensivo sobre: a pose de médico, o andar de médico, o falar de médico, o toque do médico, e todo o guia de etiqueta Glorinha Kalil de como ser médico; também começamos o estudo real de doenças e seus tratamentos, falando de efeitos de remédios, tratamentos e coisas do tipo.

Enfim, a Medicina tem crescido nesse 2° ano, com uma dose cavalar de horas e chás-de-cadeira, que fazem com que a minha vida extra-classe seja essa: um marasmo. Algumas olhadinhas na caixa de e-mails, alguns cumprimentos de tarefas, alguns outros e-mails formais trocados, uma piadinha no twitter e por fim, uma olhadinha no relógio pra saber que horas eu tenho que dormir pra começar tudo de novo amanhã.

Edit: olha só! não é que alguma coisa fora do comum aconteceu! haha, o psicoterapeuta que eu queria tanto arranjar aqui em porto alegre acabou de me ligar. :) que bom! pelo menos nao preciso ficar usando o blog pra contar coisas sem importância pra vocês, hahaha. beijinhos.

Urgência

Aiai. Eu tô morrendo de frio e tô me enrolando pra ir deitar desde as 20h, mas como nada pra mim tem urgência, ainda que seja uma urgência fisiológica tipo o sono, eu decidi parar e escrever aqui.

Tava passeando nas abas do firefox quando vi que não tinha mais nada pra olhar. Já revirei a internet por hoje. Já entrei em todos os sites que entro diariamente, blogs de  bobeirinhas (não o Kibeloco, tá?), facebook, tumblr, twitter e toda e qualquer outra rede social que possa ser citada, e bom, esgotou pra mim hoje. E  eu tô adorando a sensação. Adoro essa coisa de não fazer nada. Nesse momento eu tô escrevendo o que vem na minha cabeça, talvez até com uma falta de coerência narrativa, mas tô escrevendo o que me dá vontade e tô até com problemas de sustentação no corpo, hahaha. Tô  com a minha cabeça inclinada de lado, meio cansada, meio sonâmbula, meio querendo fechar a janela, desistir de postar e ir dormir.

E esse sentimento é tão gostosinho, sabe? O fato de eu estar na minha casa, ainda que seja uma casa desarrumada e crua, instalada nessa capital de climinha irritante, que não se sabe é calor ou friaca; Gosto daqui. Daqui uns dias as desejadas férias vão chegar de mãos dadas com o tédio. Vão chegar e me fazer desejar voltar pra cá, pra exatamente esse agora, fazendo com que eu deseje esse “nada pra fazer”. Não é chato isso?  Sou tão ansiosa e previsível que já sei o que vai acontecer na minha vida e até do que vou sentir saudade.

Por outro lado, tem coisas que eu não sei. O lado que desconhece o que vai acontecer, as pessoas que vou conhecer,  ou se alguma coisa vai dar certo ou errado nos próximos dias, e aaai aquela mesma ansiedade que me faz desenhar todo o tédio das minhas férias é a mesma ansiedade que me deixa louca pra ler os próximos capítulos da minha vida.

E se o livro acabar antes da hora? Que que eu faço?

E se vier um capítulo crítico com altas confusões e eu não souber me portar como a protagonista sábia e profuda, sei la, uma balzaquiana, e acabar virando uma insossa Sabrina daqueles handbooks idiotas?

Ai ai, que droga, não sei ser impulsiva com qualidade. Tenho essa mania escrota de querer pensar em todas  as possibilidades, e se nada de novo acontece, me frustro porque nada aconteceu. É uma ingratidão com o acaso, que não sei nem explicar, hahaha.

A verdade é que no meio de toda essa melancolia por alguma coisa que nem aconteceu ainda, só resta eu sendo ansiosa e tentando policiar o meu próprio sono, acreditando que se eu ficar aqui, evitando dormir pra que o amanhã não chegue tão rápido, eu talvez crie um controle maior do que é a minha vida e possa ler certinho a história que eu estou escrevendo. Mas uma hora, querendo ou não, amanhece, e o dia vem de qualquer jeito.

Prozac, kd vc?

Alô meus caros e estimados leitores, como vão vocês? Bem? Ah, que bom. Enfiem no CU essa felicidade toda então.

Sério. Essa foi uma das semanas mais depressivas da minha vida. Daquelas que você tenta se matar com faquinha de margarina; Aquele tipo de semana em que tuas unhas estão enormes e saudáveis, prontas pra serem pintadas e de repente você dá uma passada de mão no cabelo e a tua unha do dedo mindinho quebra NO TALO, te fazendo cair no choro imediatamente; Aquele tipo de semana que você tem vontade de assassinar pessoas na rua justamente pelo fato de elas estarem rindo e regozijando suas vidas maravilhosas.

Passei a semana sem dinheiro, comendo mal (ou simplesmente não comendo, hehe adoro essa opção), dormindo pouco (e às vezes muito), tolerando órgãos com cólicas e aguentando aquele sentimento de final de semestre que pode ser externado com o adjetivo: AMEDRONTADOR. Além disso, existem meus probleminhas coadjuvantes, que como diz o meu colega Edsãn, não deveriam ser problematizados, mas como eu sou um LIQUIDIFICADOR DO CAOS, eu simplesmente tenho o dom de juntar todos os ingredientes do universo e assar O BOLO DA DISCÓRDIA.

Mas tá, vou ser seletiva. Vou mandar tomar no cu e falar da principal preocupação:

Faculdade: Tô com medo. Tô me cagando de medo, na realidade, porque eu sempre fui de me cobrar muito. Eu crio cobranças do além. Crio uma necessidade de aprovação enlouquecida, mas que na verdade serve só pra mim. E ah, como eu adoraria ter um dispositivo secreto no meu cérebro pra simplesmente mandar eu me foder e parar de me importar! Putz! Eu queria muito.

Mas por outro lado, não seria justo parar de me cobrar, porque meu rendimento seria mediano, e poxa, quem sou eu pra ficar aqui em Porto Alegre de férias, como se estivesse muito fácil pros meus pais me manterem aqui, ne?

Aliás, isso é o que mais me incomoda. Puta que pariu. Eu queria estar indo muito bem na faculdade. No momento eu tô “só levando”, sabe? Acho que ainda não caiu a ficha de que esta vai ser a minha vida nos próximos 6 anos, simplesmente SUGANDO os recursos financeiros dos meus pais, como se eu fosse um solteirão de 30 anos morando com a mãe e trabalhando numa locadora de vídeos. EU NÃO TRABALHO! Não tenho renda. Meu dever é estudar. E ir bem. E puta que os pariu, eu queria estar estudando com vontade. Queria estar tirando boas notas, fazendo jus ao que eu sei, ao que eu sou e ao que eu sempre quis ser. Queria estar lendo pelo menos o livro de Anatomia Clínica por GOSTO e não por obrigação, sabe?

Queria estudar com a mesma vontade que eu estudava no cursinho. Que ironia ne?

No cursinho a gente estuda com aquela SEDE de passar no vestibular. Aquela SEDE de não errar, de ser impecável, de dominar o conteúdo. E de saber mesmo. Poxa! Que saudade de ler os capítulos de história medieval. Que saudade de ler as obras de literatura e poder destrinchar o conteúdo como se aquilo fosse ficar gravado pra sempre na memória. E olha.. ficou! Eu ainda sei muita coisa do cursinho. Coisa que tá calcificada no hipocampo, haha.

Tô com saudade de ler. Tô com 3 livros parados aqui, e quero muito lê-los com uma urgência salvadora.

Tô nostálgica. Tô com saudade da minha vidinha estacionada. No momento ela tá só descendo do barranco e o motor não tá ligado. É “Ponto-morto” o nome disso né?

Tô me sentindo mediana. Medíocre. E isso é desesperador.

Tô um cu.

Venha comigo nessa jornada:

Esses dias na aula de neuro, eu aprendi que os astrócitos são muito espertos. Os astrócitos não são aqueles neurônios pensantes. Eles são ajudantes, roadies dos neurônios, backstage

do pensamento, são da chamada neuróglia.  Os astrócitos tem várias funções, inclusive uma duas que eu lembro: a de fazer a barreira hematocefálica e impedindo que tudo o que passe pelo capilar difunda pro tecido nervoso (como por exemplo essas dorgas que os jovens usam), e uma das mais legais: eles indicam o caminho em que os axônios devem crescer, o tamanho que uma fenda sináptica deve ter, a quantidade de neurotransmissores ali secretados e etc.

Olha só que coisa esse astrócito! Eles são tão espertos que eles todos cresceram naquele sentido certo que faz a gente poder pensar. Eu tô pensando e tô escrevendo aqui, muito provavelmente porque algum desses astrócitos falou pro meu neurônio motor: “olha, cresce por aqui, porque aí sim você vai poder ter um lindo axônio que faz essa moça mexer

o braço” e esse boato se espalhou e de repente eu tinha um plexo braquial, todo bem programadinho e que agora faz com que eu mexa o meu braço.

Mas ah! Que ingênua eu né?! É claro que tudo isso é controlado por sinais protéicos. Meu astrócito não fala. São as proteínas que sinalizam tudo o que acontece. De alguma maneira existiu algum atrativo químico pra aquele astrócito levar o meu axônio praquela direção né?

astrócito feliz e colorido em HE (hehehee)

Não sei, talvez eu tenha botado muita fé nesse astrócito e em todas as proteínas que o formam e que o auxiliaram a me criar e me fazer pensar.

Haha, só sei que se eu fosse agora, apostar na existência de um Deus, eu diria que ele é uma enorme fita de RNA, que codifica todas as proteínas do universo.

E o que não é proteína, foi o diabo que fez.

Dia

Dentro do elevador tudo parecia normal. Parecia elevador de prédio mesmo, o ambiente não era hostil. A olhada demorada pro indicador dos andares demonstrava um pouco daquela impaciência e euforia de se estar no ambiente hospitalar pela primeira vez. Coisa de iniciante mesmo. Durante a descida pro térreo, eu parava e me perguntava se os médicos mais velhos ainda sentiam a mesma adrenalina ou o mesmo encantamento de se estar no hospital todos os dias, mas no fundo eu já sabia que era eu quem romantizava muito a situação, e tinha certeza que tudo aquilo tinha virado rotina simples de trabalhador cansado.

A porta abriu diretamente na área da triagem, e o rosto de um ou dois pacientes saltaram à visão. Uma olhada mais demorada e pude ver mais algumas coisas. Olhando pra todos os lados, os rostos dos pacientes apareciam também, cada um com sua expressão, mas que juntas, somavam uma expressão única. Dor? Desconforto? Tristeza? Bah! Não sei definir. Se eu fosse escolher uma palavra do dicionário, provavelmente escolheria “Incerteza”. Alguns pacientes tinham lenços na cabeça, outros apoiavam as mãos na testa, mas a maioria mantinha um semblante fixo, buscando serenidade nas paredes, no chão ou nas próprias mãos. Era uma sala bastante grande, com algumas fileiras de cadeiras, balcões e um sistema de senhas muito similar ao dos correios ou de bancos. A cada senha chamada, caminhava um pra bancada de atendimento? Como será o sentimento de ter uma senha do Hospital do Câncer em mãos? Será que a gente sente a mesma impaciência e pressa de ser chamado num correio? Ou será que a gente espera não ser chamado, e ouvir que tudo vai ficar bem?

Eu não sei explicar. Pela primeira vez eu não fui ao hospital no papel de paciente. Tenho consciência que também não fui com o papel de médica, mas posso dizer que me senti uma espectadora privilegiada.

Quando você é o paciente, por mais que sinta uma vontade de ser solidário com as outras pessoas que estão na sala de espera, você sabe que está com problemas, sabe que precisa de ajuda e portanto prioriza a sua situação em relação à dos outros. Mas quando não se sente nada e você não é o que precisa, mas sim o que oferece ajuda, a visão é totalmente diferente. Digo que é preciso externar esse sentimento porque é raro senti-lo. É raro que alguém vá visitar um hospital sem qualquer compromisso, salvo os pacientes e familiares ou profissionais da saúde.

O tempo decorrido é muito rápido, mas a análise é imediata. Ninguém fica olhando uma sala de triagem só por mera admiração, mas já se captam coisas no ar em questão de segundos. Não vou negar que o clima é pesado. Por mais que você tente segurar, alguma coisa te aperta e você tenta desviar. Desconfortável, tentei desviar o olhar e virei num corredor à esquerda, onde uma placa bastante grande indicava uma porta, escrito “Quimioterapia”.

Pronto. Aquilo foi o meu diagnóstico de fraqueza. Descrevendo agora, só consigo comparar a cena, da presença daquela porta e a espera daquelas pessoas, com uma espécie de purgatório, onde você senta e espera que algo aconteça.

Não quero parecer piegas, pragmática e nem leiga. Sei da brutalidade que é um câncer, sei dos seus diversos graus, conheço pessoas que venceram e outras que foram derrotadas pela doença, e apesar de não ser expert em oncologia, não sou ingênua. A cena é devastadora. A comparação pode parecer exagerada, mas pra quem não é treinado pra lidar com isso, o ambiente é muito forte mesmo.

Médicos e estudantes de medicina tem essa mania de achar que não podem se comover, que não podem sentir nojo, que não podem ser humanos e que devem, obrigatoriamente, sofrer uma petrificação do coração durante o curso. E eu concordo em partes. Talvez seja mais fácil se tornar alheio, ou pelo menos se acostumar com esse tipo de situação, porque assim a gente se protege e sofre menos.

Por fim, fui direto para a saída porque estava atrasada pra aula de anatomia. Uma enfermeira estava movendo uma senhora, numa cadeira de rodas, manobrando a cadeira pro lado da triagem. Essa senhora devia ter pouco mais de 60 anos, mas certamente a doença já havia adicionado alguns anos a mais do que o normal. Ela estava encurvada, realmente muito frágil e tinha um chapéu cobrindo a cabeça, onde só sobravam alguns poucos fios de cabelo. Com uma máscara e uma expressão bastante abatida, consegui olhar pra ela alguns poucos segundos e talvez por um reflexo ou apenas impressão minha, vi ela olhar pra mim e talvez ela tenha até sorrido, mas tenho certeza que foi meu subconsciente projetando um desejo de alívio praquela mulher.

Só sei que meus olhos encheram de lágrima, assim como os do meu amigo que estava ali junto. Não sei se todas essas coisas passaram pela cabeça dele, mas foram alguns poucos minutos que transformaram tudo aquilo numa realidade maior. Sabe quando você sente o peso da responsabilidade? Não é coisa que você vê na tv, o paciente não é de mentira e ele ta na sua frente pedindo ajuda.

Finalmente caiu a ficha.